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A democratização dos jogos e a fábula da liberdade de expressão.
Published a year ago
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O ponto cego de todo desenvolvedor brasileiro é seu próprio umbigo
A alguns anos atrás perto de 2013 quando ainda era um tabu falar de representatividade feminina em comunidades de desenvolvimento de jogos, eu estava escrevendo uma carta aberta não só falando da importância da representatividade feminina, mas principalmente da representatividade negra em jogos. Mas não necessariamente teve algum impacto na indústria ou na vida de alguém, muito menos teve alguma importância nesse assunto na época, mas dentro de mim escrever essa carta me abriu uma porta que a muito tempo eu devia ter fechado.

A fábula da liberdade de expressão e o limite da criatividade.

Desenvolvedores ainda em 2018 defendem com unhas e dentes a liberdade de expressão que eles e os companheiros devem ter quando criam seus jogos, sejam plataformas simples ou jogos que apoiam a violência contra minorias enquanto você controla algum político miticamente pixelado.

Defender ou não liberdade de expressão não vai ser o assunto tratado neste texto, pois temos vários textos que falam sobre n parábolas e teorias sobre quando se deve ou não ser apoiada a liberdade de expressão. Minha questão é sobre o fato de essa tal "liberdade" realmente ser real, se ela realmente existe no atual contexto de desenvolvimento de jogos que vivemos no cenário brasileiro.
A ideia de liberdade vem do fato de eu poder fazer aquilo que outrem também pode fazer (no caso pode vir em outros verbos além do ‘fazer’, mas irei focar neste por hora), independente do contexto social ambos tem que ter a mesma possibilidade de realizar aquela ação que eles escolheram livremente fazer.
(Talvez apenas com esse parágrafo acima já seja necessário explicar mais n coisas sobre diferença de classes e suas oportunidades, mas realmente prefiro me abster a isso).
Focando na questão de jogos se é pensado que qualquer pessoa pode fazer um jogo, logo qualquer pessoa pode fazer um jogo sobre o que quiser, por isso a liberdade de expressão é valida! O problema é que não é bem assim.

A FÁBULA


Em um vilarejo haviam dois porcos, ambos jogaram em sua juventude jogos do console pirateado que era o único que se vendia em sua aldeia. Ambos eram felizes e tinham a mesma quantidade de tempo e quantidade de jogos pra jogar.
O amor de ambos por jogos digitais era muito forte e por isso ambos sonhavam em um dia criar um jogo para outras gerações jogarem.
Porém um dos porquinhos não teve a mesma educação, assim como aos 16 anos teve que começar a trabalhar para ajudar em casa, o pouco dinheiro que lhe sobrava era usado para jogar um jogo competitivo de tiro em algumas lan-houses da sua aldeia.
O outro também teve que começar a trabalhar, mas apenas aos 18, após completar sua educação básica, ele também não precisava ajudar tanto em casa, o que lhe deu oportunidade de comprar um computador de mesa e jogar o mesmo jogo competitivo de tiro.
Anos se passaram e enquanto um dos porquinhos trabalhava diariamente como carpinteiro para sustentar sua família o outro estava terminando sua faculdade de jogos digitais.
Ambos se encontraram em uma rede social, onde um dos porquinhos apresentava seu jogo sobre porquinhos carpinteiros, um jogo simples que focava em seu tema: tirando sarro da profissão, o outro porquinho ficou extremamente ofendido e pediu para que ele tirasse tal jogo do ar.
Então o porquinho dono do jogo gritou em defesa ”eu tenho liberdade de expressão!” Fim.
Existe uma grande chance de você se identificar com um dos porquinhos da nossa fábula, o ponto é que essa fábula é sobre você e como toda fábula tem uma moral no final, está, a moral é que no fim, os únicos verdadeiramente livres são os privilegiados.
Se você se identificou com o porquinho que fez o jogo, parabéns você é um privilegiado, se você se identificou com o porquinho carpinteiro, fica aí que ainda tem algo pra tu neste texto.
Existe uma grande chance de você identificar uma parte da sua vida com o porco carpinteiro e outra com o desenvolvedor, eu mesmo sou assim, mas apesar das dificuldades isso não tira seu privilégio e não destrói a minha fábula.
O que eu quero defender (ou atacar, depende do ângulo) é como não podemos dizer que existe liberdade de expressão em jogos digitais, pois o desenvolvimento de jogos no Brasil não é democrático e não pode ser realizado por todos, mas sim somente por pessoas que obtiveram esse privilégio, independente da forma que este privilégio foi formado em sua vida.
Sim, fazer jogos no Brasil é um privilégio e nem tô falando de ganhar dinheiro com isso, apenas o fato de você poder sentar na frente de um computador e ter acesso a um conhecimento mínimo pra construir um jogo você é um privilegiado.
Acho que com oque leu aqui já é o bastante para parar de defender essa tão preciosa (e falsificada) liberdade de expressão, mas não to aqui só pra destruir seu sonho de liberdade.

A democratização dos jogos digitais no Brasil

Agora que sabemos que estamos em um cenário onde não existe exatamente uma real liberdade de expressão, vamos descobrir como mudar isso, obviamente usando o funk como exemplo :)
O funk carioca nasceu de um outro gênero também conhecido pelo mesmo nome, mais no esquema James Brown e Mickael Jackson.
Um dia um maluco resolveu juntar o som de James Brown com Timbalada, e imagino que o resto tu já sabe, mesmo que não goste funk está em todos tocando em todos os pontos do Brasil, até dentro da sua casa se tu morar do lado de onde tem um baile funk.
Nós temos artistas de funk literalmente surgindo do nada e dominando a indústria da música, alguns músicos de carreira chegaram até mesmo onde antes nenhum outro músico brasileiro conseguiu chegar, essa é a forca do funk, ou melhor essa É a força da liberdade, representatividade e democracia.
Hoje qualquer um consegue fazer funk, existem até mesmo funks que foram criados com apenas o uso de um smartphone simples e fizeram muito sucesso.
Existem hoje artistas de funk conhecidos por o palavreado escrachado e até violento, assim como alguns por conta do romance ou religião, existem vários tipos de funk, pois literalmente qualquer um pode fazer e por isso que funk hoje é o que temos de mais democrático em termos de produção cultural.
E por conta disso temos uma real liberdade de expressão, por isso que mesmo aquela músicas que retrata violência sexual vai tocar em algum lugar.
Eu espero que agora tu consiga ver como o cenário de musica funk hoje em dia da a possibilidade de qualquer um se expressar por esse conteúdo cultural.
Agora como fazer algo assim rolar com jogos?

Cultura marginal

Hoje em dia o mercado de jogos digitais é mais que bilionário, já ultrapassou o cinema a anos atrás se tornando um dos maiores mercados de entretenimento. Mas isso não impede de que como Rap, RB&B, Grafite e Funk, jogos se torne uma cultura verdadeiramente democrática.
Mas para isso precisamos marginalizar o desenvolvimento de jogos, tirar os mouses e teclados das mãos elitistas dos desenvolvedores privilegiados e dar para o povo, para TODO MUNDO no caso.
Funk, Rap pagode ou qualquer outra cultura democrática tem uma coisa em comum, todas nasceram de um mesmo público, o povo que até então era esquecido e mal visto pela sociedade como um todo (marginalizado!). E assim como seus criadores, essas criações também foram marginalizadas, quantas pessoas hoje em dia ainda tem preconceito de quem ouve funk, ou pagode?!
Tá pode parecer que no caso estou oferecendo que a gente pegue jogos digitais e só aumente o preconceito que já existe sobre ele…
(NÃO! Prestatencao mininu!)
O que eu estou oferecendo é levar jogos digitais para todas as classes, tornar o desenvolvimento de jogos algo tão “fácil” quando lançar um funk.
Mostrar pras pessoas que fazer jogo não só é fácil, como é uma ótima forma de expressão, transformar jogos digitais uma nova gíria("gíria não, dialeto") dentro das comunidades, escolas e casas.
Com isso não só desfazemos a minha fábula (que é o objetivo deste texto) como teremos uma real liberdade de expressão e criativa! Pois somente tendo vários tipos de culturas e vivências podemos atingir o “além” do limite da criatividade e somente depois desse além podemos enxergar essa tal liberdade.
Na próxima vez que for fazer seu jogo, faça um que a tia preta do mercadinho entenda e queira responder, faça um jogo que seja verdadeiramente democrático.
Mais textos sobre o assunto virão, fiquem a vontade para responder, bora conversar sobre!
Carlos Vinicius
Game Designer, Artist and Developer - Artist
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